terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

VÁ, SOMOS «FIGURAS PÚBLICAS (?) ANÓNIMAS»




Antes de lerem (ou depois) deixem-me que partilhe convosco algumas ideias que já tenho há muito: ninguém sabe ao certo qual o papel de um blogger de moda. Quais os papéis (profissionais e sociais) que pretende substituir de outrem... (pensam alguns). Mas porque os bloggers não são só... bloggers? Porque os bloggers devem ser comparados a figuras públicas, a fashion advisers, a jornalistas? Quando, a meu ver, o que têm em comum resume-se ao simples gosto pela moda e ao direito de expressar a sua opinião e gosto por essa indústria (seja com mais ou menos visibilidade/exposição pública). 

Quando expliquei ao meu eterno avô o que era o meu blog de moda, disse-lhe que se tratava de um diário escrito por mim, com artigos sobre moda e fotografias minhas, mas em vez de ser lido em papel, lê-se por trás de um ecrã de um computador (deixei o protagonismo dos tablets e dos smartphones de lado). E, resolvi arriscar acrescentar, qualquer pessoa do mundo pode ler o blog se souber qual o endereço do mesmo ou se procurar num motor de pesquisa por temas que eu já tenha abordado (à semelhança de procurar numa tabacaria ou banca de jornais determinados temas em diferentes revistas).

- As pessoas responsáveis pela comunicação de diversas marcas também leem o meu blog - disse-lhe, e expliquei-lhe que me proporcionavam desafios e experiências para opinar sobre as mesmas.
– És uma jornalista a fingir –, disse-me o meu avô.
- É possível que a maioria me encare assim, afinal tenho que experienciar para falar sobre… – respondi-lhe. 

Até há poucos anos sabe-se que as informações de moda estavam restritas aos jornalistas de moda e eram passadas exclusivamente pelas revistas e jornais. Até que, penso que foi em meados de 2002 ao nível internacional, começaram a surgir blogs de autores não especializados em moda mas que aprofundavam o tema da moda e acabaram por democratizar esses saberes fashionistas. Pessoas comuns, que não jornalistas, opinavam sobre moda e conceitos de marcas e mostravam o seu estilo pessoal através de fotografias. Surgia então esta nova abordagem à escrita sobre moda e à inspiração através da divulgação e registo de “looks reais”, tal como acredito que acontece neste blog. 

Desde 2009 a actividade de blogging em Portugal evoluiu e começou a despoletar polémicas, entre elas:

“Os bloggers agora têm acesso às mesmas experiências das figuras públicas e dos jornalistas. Vão a desfiles... sentam-se nas primeiras filas... são fotografados e entrevistados pela imprensa... E como se não bastasse também se tornam a cara de algumas marcas em campanhas de publicidade. Pode tornar-se injusto para algumas carreiras”, disse-me um amigo, considerado figura pública, num evento num dia destes. Respondi-lhe que ser blogger hoje também já é considerado uma carreira. Expliquei-lhe que por trás dos melhores blogs (de moda) estão pessoas formadas em determinadas áreas e que depositam os seus conhecimentos no blog. Podem perder-se dias e horas a organizar, procurar e selecionar a informação (como um jornalista faz numa revista ou um marketeer numa agência), de acordo com uma linha editorial pré-definida e até, ao limite, uma análise SWOT, para ser transmitida ao público leitor. Informação essa que, na grande maioria, é suportada por imagens fotográficas, cujos créditos são também geralmente pessoais. Engane-se quem pensa que um (bom) blog reproduz somente os press releases cedidos pelas agências de comunicação que representam as marcas.

Ainda expliquei também a esse meu amigo que não basta ter um blog para as marcas convidarem para os eventos, para experimentar uma refeição, uma estadia, uma massagem ou um qualquer outro conceito, ou até convidarem para ser vestido ou calçado por uma marca. Existe uma seleção rigorosa feita de acordo com os valores das próprias marcas (muito além dos números de visitas) que se pretende que vão ao encontro da identidade da marca do blogger.

- Fica descansado, os bloggers em Portugal são como que figuras públicas anónimas. A sua imagem é reconhecida por uma massa muito específica: as marcas, outros bloggers, leitores de blogs e eventualmente consumidores híper fashionistas e atentos à informação gerada pela web (normalmente indivíduos de uma faixa etária jovem ou com uma formação académica específica), disse-lhe.

Este conceito de “fama”, pelo menos do que constato a nível internacional, acabou por ser transformado pelo impacto social dos bloggers. Não são editores famosos nem celebridades, mas têm pessoas que leem os seus blogs, que comentam, que visitam, e a quem podem mesmo influenciar. E os bloggers expõem-se nos dias bons e assim-assim com o intuito de desenvolver as suas audiências, as quais já consideram uma turma de amigos virtuais. Para o seu público são “famosos”. E é por esta "fama" anónima e quase secreta,  que as marcas convidam bloggers para sessões de fotografias, editoriais e colaborações. É que senão, coitadas das marcas, também estariam sempre limitadas o mesmo tipo de comunicação para o mesmo tipo de público. Boring...


É verdade que também reparo que há alguns exageros. É verdade que a fama pode, no entanto, subir à cabeça! O facto de existirem bloggers a nível internacional que cobram às marcas pela sua presença em eventos retrata um tópico que tem levantado polémica. É importante ter em conta que esta cobrança é feita geralmente pelos agentes das figuras públicas, e não é feita (acho!) por editores entre outras personalidades cuja credibilidade jamais é posta em causa. Assim, para os bloggers serem levados a sério, editorialmente não será o mais credível assemelhar a sua função à posição de uma figura pública comercial que cobra para estar presente em eventos, já que poderá comprometer a integridade editorial da cobertura do evento no blog. Mas, por outro lado, não será uma situação semelhante à escrita no blog com um post patrocinado por uma marca?

A fama sobe, de qualquer forma, mesmo à cabeça. Algumas marcas internacionais desabafaram que surgem eventos que implicam o deslocamento dos convidados, muitas vezes com subsídios de viagem muito modestos por parte das marcas patrocinadoras, e ainda assim os bloggers exigem um tratamento de luxo com viagem de avião em primeira classe e um hotel de 5 estrelas, por exemplo...

No outro dia conversava, desta vez, com uma amiga jornalista que argumentava comigo sobre o tema “blogs de moda”, aparentemente já muito discutido entre outros jornalistas. “Não tarda um blogger pode pedir uma Carteira de Jornalista… sem formação na área de jornalismo...” - disse-me.

Independentemente desta questão de poder ter ou não uma Carteira de Jornalista, é um facto que os bloggers já têm acesso, em última análise, às mesmas informações e oportunidades que um jornalista. Ambos têm credibilidade fundamentada junto das marcas, merecendo o estatuto de opinion makers e, assim, têm acesso em primeira mão à informação das marcas. A diferença é que o primeiro depende da Organização da Redação, e o segundo trabalha as “regras do jogo” por conta própria.

Na minha opinião estas duas profissões (ou papéis, para quem não considera o blog como uma profissão) complementam-se e não rivalizam entre si. Conheço jornalistas que fazem do mundo dos blogs tema de notícia ou que pedem colaboração aos próprios bloggers para darem a sua opinião sobre alguns temas (normalmente relacionados com moda). Nesta perspetiva, os bloggers parecem enriquecer os conteúdos dos jornalistas nas revistas. Também conheço (ex) bloggers que ansiavam ser jornalistas e que usavam o seu blog como forma de mostrarem a sua vocação. E também se conhece (ex) jornalistas que acharam que vingavam mais o seu trabalho de escrita num blog do que numa revista. Também constato ainda que houve revistas que criaram blogs para serem mais rápidas na passagem de informação e, assim, não ficarem por esse ponto de vista em desvantagem em relação ao imediatismo dos blogs.

Os bloggers e os jornalistas têm, para mim, o seu papel bem definido nesta sociedade de comunicação. Não há espaço para se sobreporem nem para rivalizarem. Os jornalistas são…jornalistas. Devem ser imparciais. E os bloggers não fazem só um trabalho de escrita opinativa e pessoal, como são protagonistas (a imagem) do seu espaço de escrita, e podem, em última instância, sobreviver sem apoios das marcas. Bloggers são…bloggers

O objectivo de divulgar moda é apenas o que existe em comum. E o investimento publicitário das marcas pode e deve considerar ambos os meios de comunicação. De qualquer forma tanto os editores, jornalistas, escritores e bloggers escrevem para um público que os ouve e que os respeita. Por isso, é natural que as marcas tenham ganhado um respeito pelos bloggers semelhante ao que nutrem pelos outros autores que escrevem.

É importante perceber que, no meu ponto de vista, os bloggers independentes não procuram competir (ou sequer substituir) com um meio de comunicação tradicional. Procuram antes o seu próprio espaço no mercado da moda onde possam refletir e escrever de uma forma mais pessoal, aberta e com um conteúdo mais social.

E podia continuar a escrever, a escrever, a escrever...mas acho que já me alongei demais ;)

4 comentários:

MintJulep disse...

Gostei gostei gostei mesmo muito de ler este teu texto. Sinceramente, eu prefiro ler blogs de moda do que comprar revistas ditas de moda, pelo menos no panorama nacional. Consigo ter mais informação que me interesse, mais inspiração do que numa revista de moda portuguesa. Mas isso sou eu.
http://fashionfauxpas-mintjulep.blogspot.com

Ivânia Diamond by Ivânia Santos disse...

E poderias escrever e escrever e aposto que ainda haveria muito gente que não percebe a importancia de um blogger nesta indústria, e que continua a achar que apenas se anda por aqui a brincar...

Sou da opinião que um jornalista será sempre um jornalista. Mas os tempos evoluíram, a tecnologia evoluiu, a moda também, e existem novas profissões.
Blá blá blá...

Poderia perfeitamente também continuar a escrever mas, para quê?
Apenas quero dizer que gostei muito do teu texto!

Beijinho Martinha*
IV
www.ivaniadiamond.com

The Pink Leather Jacket disse...

Gostei muito e vou partilhar! Pode ser que elucide algumas mentes meio ocas!***

Marta Pinto de Miranda disse...

Muito obrigada pelo vosso apoio e palavras =) beijinhos a todas*